Terminado o tratamento contra o câncer de mama, a maior parte das pacientes entra em uma rotina de exames de imagem periódicos, esperando que qualquer sinal de recidiva apareça ali, em uma tomografia ou em uma ressonância. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues chama atenção para uma tecnologia que está mudando essa lógica de vigilância: a biópsia líquida, capaz de identificar fragmentos de DNA tumoral circulando no sangue muito antes de qualquer imagem conseguir mostrar uma lesão visível.
O que torna essa tecnologia tão relevante não é apenas sua capacidade de detecção, mas o tempo de antecipação que ela oferece. Um estudo apresentado na Conferência Europeia de Câncer de Mama acompanhou pacientes por sete anos e mostrou que o nível desse material genético circulante, medido logo após o tratamento sistêmico e antes da cirurgia, prevê recidiva com mais precisão do que os métodos até então utilizados. Entender como um simples exame de sangue chegou a esse ponto ajuda a explicar por que tantos centros de oncologia ao redor do mundo já discutem incorporá-lo à rotina de acompanhamento.
De onde vem esse material genético que aparece no sangue?
Células tumorais, como qualquer célula do corpo, morrem constantemente, seja pelo próprio ciclo natural, seja em resposta à quimioterapia ou à radioterapia. Ao morrerem, liberam fragmentos de DNA na corrente sanguínea, e tecnologias de sequenciamento genético hoje conseguem capturar esse material em quantidades mínimas, distinguindo o que veio de uma célula tumoral do que veio de tecido saudável. Não é preciso agulha em tumor nenhum, apenas uma amostra de sangue processada em laboratório especializado.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, o dado mais interessante não é a tecnologia em si, já bem estabelecida em outras áreas da genética, mas o que sua presença depois do tratamento realmente significa: um sinal de que ainda existem células tumorais ativas em algum lugar do corpo, mesmo quando nenhuma lesão é visível em exame de imagem. Ele chama isso de doença residual mínima, um estágio invisível para os olhos, mas já detectável no sangue.
Esse tipo de achado realmente se confirma na prática, com o passar do tempo?
Um estudo que acompanhou pacientes por vários anos depois do tratamento encontrou uma diferença que chama atenção: mulheres com células tumorais circulantes detectáveis no sangue, mesmo cinco anos após o diagnóstico e sem qualquer sinal clínico de recidiva, tinham treze vezes mais chance de apresentar recorrência tardia da doença. Entre essas pacientes, a taxa de recorrência chegou a 21,4%, contra apenas 2% entre aquelas com resultado negativo no exame.

Na avaliação do médico radiologista, Dr. Vinicius Rodrigues, esse tipo de diferença muda a conversa sobre acompanhamento pós-tratamento, já que hoje o protocolo costuma ser praticamente igual para todas as pacientes, independentemente do risco biológico real de cada uma. Ele acredita que, à medida que esse tipo de evidência se acumula, o seguimento tende a ficar mais individualizado, com vigilância mais próxima justamente para quem apresenta esse sinal de alerta no sangue.
Isso significa que os exames de imagem vão perder espaço no acompanhamento?
Não, e é importante deixar isso claro: nenhuma das duas ferramentas substitui a outra, elas respondem a perguntas diferentes. A imagem mostra onde está uma lesão, seu tamanho e sua forma; a biópsia líquida mostra atividade biológica que pode aparecer meses ou anos antes de qualquer estrutura se tornar visível. Para o ex-secretário de Saúde, Dr. Vinicius Rodrigues, tratar essas tecnologias como concorrentes seria um erro estratégico, já que o ganho real está justamente em usá-las de forma complementar, cada uma no momento em que fornece a informação mais valiosa.
Ele pondera, porém, que o custo ainda elevado dessa tecnologia, somado à falta de protocolos padronizados sobre frequência ideal de repetição do exame, mantém a biópsia líquida distante da realidade da maior parte do sistema público de saúde brasileiro, restrita por enquanto a centros de referência e pesquisa clínica.
O que falta para essa tecnologia se tornar rotina no acompanhamento oncológico?
Reduzir custo de sequenciamento genético, validar protocolos claros de frequência e interpretação, e treinar profissionais para incorporar esse dado à decisão clínica são os três pilares que ainda precisam amadurecer antes de uma adoção ampla. Nenhum desses desafios é trivial, mas todos já vêm sendo enfrentados por diferentes grupos de pesquisa em ritmo acelerado.
Por fim, o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que essa é, provavelmente, uma questão de tempo, e não de possibilidade: a tecnologia já provou seu valor preditivo, resta o sistema de saúde alcançar a capacidade de oferecê-la em escala. Para ele, o futuro do acompanhamento pós-tratamento passa por essa combinação entre olhar a anatomia por meio da imagem e escutar, no sangue, o que ainda não se tornou visível.
