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Tecnologia

Agência amplia fiscalização sobre IA e plataformas digitais, enquanto busca limitar mecanismos que estimulam uso excessivo e proteger crianças e adolescentes.

Lucia Corvalles
Lucia Corvalles setembro 9, 2026
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Agência amplia fiscalização sobre IA e plataformas digitais, enquanto busca limitar mecanismos que estimulam uso excessivo e proteger crianças e adolescentes.
Agência amplia fiscalização sobre IA e plataformas digitais, enquanto busca limitar mecanismos que estimulam uso excessivo e proteger crianças e adolescentes.
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A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade e passou a ocupar um espaço central na discussão sobre direitos digitais no Brasil.

Nesta semana, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) revelou que prepara um centro de inteligência artificial para ampliar sua capacidade de analisar algoritmos, modelos e tecnologias utilizadas por plataformas digitais. A iniciativa ocorre em paralelo ao avanço da fiscalização sobre redes sociais e ferramentas de IA, especialmente quando estão envolvidos dados pessoais, crianças e adolescentes.

Contents
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade e passou a ocupar um espaço central na discussão sobre direitos digitais no Brasil.Por que a ANPD está aumentando o controle sobre a inteligência artificialRolagem infinita e algoritmos entram no debate sobre direitos digitaisO que pode mudar para usuários, empresas e crianças no ambiente digital

O movimento chama atenção porque acontece em um país no qual a internet já alcança 95% dos domicílios, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo em que serviços digitais facilitam comunicação, trabalho, educação e consumo, algoritmos passam a influenciar o tempo que as pessoas permanecem conectadas e o conteúdo que recebem.

Por que a ANPD está aumentando o controle sobre a inteligência artificial

A criação de uma estrutura especializada em inteligência artificial representa uma mudança importante na capacidade de fiscalização do Estado. A ANPD já colocou IA e tecnologias emergentes entre os temas prioritários de fiscalização para 2026 e 2027, ao lado de direitos dos titulares, proteção de crianças e adolescentes e tratamento de dados pessoais pelo poder público. A agência também vem monitorando plataformas digitais, lojas de aplicativos e ferramentas de IA generativa utilizadas no mercado brasileiro.

Na prática, isso significa que a discussão sobre inteligência artificial no Brasil está deixando de se concentrar apenas na inovação tecnológica e passando a envolver questões de responsabilidade, transparência e proteção de dados. A ANPD informou que monitora 22 agentes, incluindo redes sociais como Instagram, Facebook, TikTok, YouTube e Discord, além de ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude, Copilot, Meta AI e Perplexity. O objetivo não é simplesmente impedir o funcionamento dessas tecnologias, mas verificar se elas adotam mecanismos adequados para prevenir riscos e cumprir as regras brasileiras.

Para o cidadão, a consequência mais importante é que decisões tomadas por sistemas automatizados podem passar a receber uma fiscalização mais estruturada. Isso envolve desde a maneira como informações pessoais são utilizadas até os critérios empregados para recomendar conteúdos ou criar experiências digitais. A tendência é que empresas tenham de demonstrar com mais clareza como seus sistemas funcionam e quais medidas adotam para reduzir riscos, especialmente quando suas tecnologias atingem públicos vulneráveis.

Rolagem infinita e algoritmos entram no debate sobre direitos digitais

Um dos pontos mais relevantes levantados pela ANPD é a chamada rolagem infinita, mecanismo presente em diversas redes sociais que permite ao usuário continuar recebendo conteúdo sem chegar a um final definido. A diretora da agência Lorena Giuberti afirmou que a estrutura regulatória brasileira começa a olhar também para mecanismos de design que podem estimular o uso compulsivo das plataformas, incluindo notificações excessivas e outras estratégias de retenção.

A questão é mais complexa do que simplesmente decidir se a rolagem infinita deve ou não ser proibida. Plataformas argumentam que recomendações personalizadas e mecanismos de continuidade ajudam a organizar grandes volumes de informação e tornam os serviços mais convenientes. Por outro lado, pesquisadores e autoridades de proteção de dados podem questionar quando uma ferramenta deixa de apenas facilitar a navegação e passa a explorar padrões de comportamento para prolongar deliberadamente o tempo de permanência do usuário.

Esse debate ganha peso no Brasil porque o uso da internet é praticamente universal entre a população conectada. Segundo o IBGE, mais de 90% das pessoas de 10 anos ou mais utilizaram a internet em 2025, enquanto 95% dos domicílios tinham acesso à rede. Com uma parcela tão grande da população exposta diariamente a sistemas de recomendação, decisões sobre design e algoritmos deixam de ser apenas escolhas comerciais das empresas e passam a ter efeitos sociais mais amplos.

A discussão também se conecta diretamente à proteção de crianças e adolescentes. O ECA Digital criou novas obrigações para plataformas e atribuiu à ANPD competência para fiscalizar sua aplicação, incluindo mecanismos de aferição de idade, supervisão parental e prevenção de riscos. A agência já iniciou monitoramentos específicos e determinou, em agosto, uma medida preventiva contra o Discord relacionada à proteção de menores.

O que pode mudar para usuários, empresas e crianças no ambiente digital

A próxima etapa da regulação deve aumentar a pressão para que empresas de tecnologia sejam mais transparentes sobre seus produtos. Um exemplo concreto é o prazo de 17 de setembro para que determinadas plataformas digitais publiquem seus primeiros relatórios semestrais de transparência previstos pelo ECA Digital. A obrigação alcança plataformas com mais de um milhão de usuários menores de 18 anos registrados e exige informações sobre as medidas adotadas para proteger esse público.

Para os usuários, isso pode representar uma internet na qual as configurações de privacidade, recomendação de conteúdo e proteção de menores ganhem mais importância. Também pode aumentar a possibilidade de questionamentos quando uma plataforma utiliza dados pessoais de maneira inadequada ou quando determinado recurso tecnológico cria riscos previsíveis. A ANPD já deixou claro que sua atuação alcança tanto plataformas tradicionais quanto ferramentas de inteligência artificial generativa.

Existe, porém, um desafio de equilíbrio. Uma regulação excessivamente rígida pode aumentar custos, reduzir espaço para inovação e dificultar o desenvolvimento de novas aplicações de inteligência artificial no país. Por outro lado, uma fiscalização insuficiente pode deixar consumidores expostos a coleta inadequada de dados, manipulação comportamental, fraudes, conteúdos nocivos e sistemas pouco transparentes.

O caminho adotado pela ANPD indica uma tentativa de combinar inovação com responsabilidade. A própria agência vem trabalhando com mecanismos de orientação, monitoramento e fiscalização, em vez de depender exclusivamente de punições posteriores. Esse modelo será particularmente importante à medida que agentes de IA, sistemas capazes de executar tarefas autonomamente e ferramentas generativas se tornarem mais presentes no cotidiano brasileiro.

O impacto mais profundo dessa transformação é que a tecnologia passa a ser discutida também como questão de cidadania. O usuário não é apenas consumidor de aplicativos: ele é titular de dados pessoais e, em determinadas situações, pode estar sujeito a decisões automatizadas que afetam sua experiência digital. Para crianças e adolescentes, a proteção é ainda mais relevante, porque a legislação brasileira já reconhece que esse público demanda salvaguardas específicas.

Nos próximos meses, a atuação da ANPD poderá ajudar a definir quais limites serão considerados aceitáveis para algoritmos, inteligência artificial e plataformas digitais no país. O debate não deverá ser apenas sobre impedir abusos, mas sobre estabelecer regras que permitam inovação sem transformar dados pessoais e atenção dos usuários em recursos sem controle. Para o brasileiro, acompanhar essa discussão significa entender direitos que já fazem parte da vida cotidiana, mesmo quando estão escondidos atrás de uma tela, de uma recomendação automática ou de uma ferramenta de IA.

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